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As Grandes Entrevistas de Engenharia com… Marlene Catarino Tavares

Entrevista 15 Abril, 2019

Pode ainda não ser comum, mas que as há, há! Marlene Catarino Tavares iniciou a carreira na manutenção de serviços do estabelecimento prisional feminino de Santa Cruz do Bispo, agora é engenheira de Minas na Somincor, empresa mineira em Castro Verde.Dependendo do horário de trabalho e das horas passadas no fundo da mina, considero que sim, é necessário fazer sacrifícios.” E às vezes também há alguns sustos. Da supervisão de carregamentos com explosivos à monitorização de vibrações, conheça a entrevistada deste mês das Grandes Entrevistas de Engenharia.

 

Atualmente é Engenheira de Minas na Somincor, mas o seu percurso não foi logo nesta função, não é verdade?

Iniciei o meu percurso profissional numa área que nada tinha a ver com Engenharia de Minas, mas ficar em casa depois de me licenciar não era opção. Comecei a trabalhar na Ferrovial Serviços, empresa que na altura fazia a gestão e manutenção de serviços do estabelecimento prisional feminino de Santa Cruz do Bispo. Trabalhei lá durante 1 ano e meio, até concorrer ao lugar de estagiário para a empresa de explosivos SEC. Trabalhei 2 anos nesta empresa e era responsável pelo apoio técnico das pedreiras da região Sul e Somincor (Mina). Foi durante este período que me foi feita uma proposta de trabalho para ficar na mina.

O que faz uma engenheira de Minas nas suas funções atuais?

Atualmente as minhas funções prendem-se essencialmente com a elaboração dos planos de furação e carregamento para os disparos das bancadas, controlo do stock de detonadores, investigação, estudo e otimização de técnicas de desmonte e produtos explosivos, acompanhamento e supervisão de carregamentos com explosivos e monitorização de vibrações. Mas dependendo do departamento para o qual vá trabalhar, um engenheiro que entra na Somincor começa por ter uma formação de integração (superfície + subterrâneo) que pode chegar aos 3 meses.

Como é um dia normal de trabalho? É preciso fazer sacrifícios para se fazer carreira em minas?

Acordar cedo é aquele que me ocorre de imediato (risos). Dependendo do horário de trabalho e das horas passadas no fundo da mina, considero que sim, é necessário fazer sacrifícios, como o de estar ausente ou distante da família mais tempo ou ter de trabalhar aos fins de semana.

Não é muito frequente vermos engenheiras de minas, ou pelos menos não era tão frequente…

Por ser um ambiente de trabalho mais pesado (se assim lhe podemos chamar), está associado mais a trabalhos masculinos, no entanto este é um conceito que felizmente tem vindo a mudar. Nos últimos anos têm sido integradas também mulheres nas diversas tarefas mineiras.

Enquanto mulher engenheira, quais as vantagens e desvantagens?

Saber ser e estar é fundamental para se usufruir de todas as vantagens possíveis, independentemente do género. Não consigo (nem quero) ver as coisas neste prisma. Quanto muito poderia referir-me como vantagem/desvantagem à força masculina para determinados trabalhos, mas nos dias que correm há cada vez mais mulheres com excelentes desempenhos físicos à altura de qualquer outro homem. É tudo uma questão de empenho e dedicação.

Já lhe chamaram muitas vezes “mineira” em vez de “engenheira”? Tem piada, ou é algo que nunca se deve dizer?

Não foram muitas vezes, mas já aconteceu. Os meus pais e os meus amigos costumam referir-se a mim como mineira, algo que tem piada e inclusive me deixa com uma pontinha de orgulho.

Sabemos que a realidade ultrapassa muito a ficção, mas já teve alguma situação numa mina ou no exercício da sua profissão em que achasse: “isto parece de um filme”?

Sim, já. Passamos mais de 8 horas a trabalhar, é normal que aconteçam situações dignas de um filme seja ele dramático, ficção científica ou até mesmo terror. Lembro-me rapidamente de uma situação que aconteceu estava eu a trabalhar na Somincor há pouco mais de um ano. Fim de semana em meados de Agosto, estava eu a preparar um saco para usufruir de um belo dia de praia quando me ligam a pedir que me deslocasse à mina, porque o camião que fazia o transporte e distribuição do explosivo a granel no interior da mina tinha tombado ao contornar uma das galerias. Estava instalado algum pânico porque havia receio que ao mexer no camião, a emulsão pudesse detonar.

Em que sentido o que faz impacta com a vida das pessoas, na profissão e fora dela?

Eu prezo muito o tempo que podemos passar com a família, e os horários para quem trabalha numa mina são condicionantes neste aspeto. Para além disso, as doenças profissionais (como a silicose) são algo que a longo prazo pode impactar com a nossa vida.

 

Quais os seus projetos de futuro?

Já estou a trabalhar na mina há quase 10 anos e inevitavelmente começo a pensar em alargar os meus conhecimentos para outras áreas sem ser Engenharia de Minas, mas ainda não tenho definido nada em concreto.

A Engenharia está na moda? Porquê?

Quando andava na faculdade achava que sim, que a Engenharia de gestão era uma Engenharia que estava na moda porque de repente, “toda a gente” queria Engenharia de gestão. Hoje não penso da mesma forma.

Qual acha ser ou qual deveria ser o papel da Ordem do Engenheiros na vida profissional Engenheiros?

É importante na medida em que há um organismo com informação de Engenharia sempre atualizada, à qual podemos recorrer pelas mais diversas razões, enriquecendo o nosso conhecimento. Sempre que apresentei o meu CV essa informação constava lá.

Nomeie um engenheiro do Norte que esteja a desenvolver um trabalho que aprecia, dentro ou fora de Portugal.

Estive há pouco tempo numa conferência anual de explosivos da ISEE (International Society of Explosives Engineers) e tive oportunidade de conhecer o Eng. Francisco Leite, que lançou no mercado um projeto muito interessante chamado O-Pitbalst, muito útil para utilizar na indústria extrativa, para controlo das operações de furação e carregamento de pegas.

Há Engenharia em tudo o que há? 

Sem qualquer hesitação, sim, há! Sendo uma pessoa muito racional, vejo Engenharia em tudo, para onde quer que olhe. É uma maneira prática de ver as coisas e não sei vê-la de outra forma.

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