Adriano Sousa: “Vejo o desenvolvimento da região para os próximos 10 anos com alguma apreensão”

Olhando para o desenvolvimento que a região teve nos últimos 10 anos, qual a perspetiva para os próximos 10 anos? Especificamente, no que diz respeito a obras públicas em geral, infraestruturas, em particular e investimentos privados na região, o que está em falta?

Vejo o desenvolvimento da região para os próximos 10 anos com alguma apreensão, a menos que haja uma alteração significativa de políticas e de atitudes que provoquem a desejável rotura com as práticas que vigoraram até hoje.

É notório que as políticas de reequilíbrio e coesão territorial que têm vindo a ser adotadas por sucessivos governos e pelos municípios não têm surtido o efeito desejado.  Não obstante a implementação de diversas medidas relacionadas com a melhoria das acessibilidades, infraestruturas, equipamentos, oferta de terrenos em zonas industriais a preços reduzidos, incentivos diversos, redução de taxas e impostos municipais, etc., o que na prática se tem verificado, é um agravamento das desigualdades sociais e territoriais, caracterizadas por um despovoamento crescente dos territórios do interior e por uma perda de serviços e de postos de trabalho.

Porque, sejamos claros, o que continua a faltar nos territórios do interior, de modo a contrariar a perda de população e de competitividade, dá pelo nome de emprego. Mas emprego que seja qualificado e produtivo! Hoje temos um conjunto razoável de cidades dotadas de estabelecimentos de ensino superior que formam anualmente um significativo número de jovens em variadas áreas. Contudo, há territórios que conseguem reter os seus jovens licenciados, enquanto outros continuam a lamentar a sua fuga, precisamente para o litoral, pois é lá onde mais facilmente arranjam emprego qualificado e mais bem remunerado.

 

“Enquanto o investimento privado continuar a ser “convidado” a optar por cidades do litoral, muito dificilmente os territórios do interior conseguirão desenvolver-se, captando e fixando jovens e novos talentos.”

 

O futuro dos territórios do interior dependerá, em muito, do dinamismo das suas cidades e vilas, nomeadamente da sua capacidade de se modernizarem e de se dotarem das infraestruturas digitais adequadas. Só assim será possível atrair novas empresas, que sejam geradoras de emprego, de riqueza e de valor acrescentado, constituindo-se como polos dinamizadores dos respetivos territórios envolventes.

O atual Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), recentemente apresentado pelo Governo, atende às necessidades do interior e em particular dos distritos de Bragança e Vila Real?

Parece-me mais um plano tendencialmente vocacionado para o litoral, mais especificamente para as Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto. E quando assim é, ao invés de se constituir num instrumento destinado ao reforço da coesão social e territorial, acabará por contribuir para um agravar das assimetrias que já existem entre o litoral e o interior. A título de mero exemplo, não deixa de ser curioso o facto das duas únicas capitais de distrito do país, que não são contempladas com qualquer investimento na ferrovia, seja através do Plano Nacional de Investimentos (PNI2030), seja através da Ferrovia 2020, são precisamente Vila Real e Bragança. Outro exemplo tem a ver com o roteiro para a transição climática, concretamente no domínio da mobilidade sustentável. Do total da verba prevista, 9,3% destina-se à descarbonização dos transportes públicos para todo o território nacional, enquanto que os restantes 90,7% dizem respeito a investimentos situados nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Entretanto, ao contrário do que acontece nas áreas metropolitanas, são os orçamentos municipais que continuam a suportar, integralmente, o chamado défice de apoio à exploração das redes de transportes públicos municipais, devido ao tipo de oferta e à qualidade de serviço que tem de se colocar aos dispor dos cidadãos, de modo a incentivar a necessária transferência modal do transporte individual para o transporte público e, assim, contribuir para o desígnio da descarbonização.

Quais os desafios e oportunidades para os engenheiros e para as empresas de engenharia da nossa região, nos próximos anos, quando comparados com a realidade do litoral?

Na minha opinião, esses desafios e oportunidades não terão tanto a ver com o facto de se estar no litoral ou no interior, mas sim com a capacidade que as empresas e os engenheiros vierem a demonstrar para inovar e para imprimirem um selo de qualidade ao produto final. Porque não tenhamos dúvidas, a competitividade dos territórios, das cidades e das empresas vai jogar-se nos tabuleiros da inovação e da qualidade.

 

“É importante que haja, da parte dos engenheiros e das empresas, uma nova cultura e uma maior sensibilidade para a necessidade de se descarbonizar”

 

O setor da construção civil é um desses exemplos, em que a inovação e o aumento de qualidade do produto final poderão ser conseguidos através da introdução da domótica, da utilização de materiais mais sustentáveis e amigos do ambiente e de novas técnicas construtivas. É importante que haja, da parte dos engenheiros e das empresas, uma nova cultura e uma maior sensibilidade para a necessidade de se descarbonizar este importante setor da economia, através do aumento da eficiência energética e da consequente redução das emissões de GEE, mas também no combate à pobreza energética, onde Portugal está muito mal colocado no ranking europeu.

Quais as áreas de oportunidade para a engenharia no futuro próximo?

O mercado de trabalho e das profissões estão em profundas mudanças. Hoje começa a ser habitual ouvirmos falar de sustentabilidade ambiental, de inclusão social, de acessibilidade universal, da Internet of Things (IoT), de inteligência artificial (IA), de reciclagem, de aquecimento global, de alterações climáticas, de economia verde, de economia circular, de eficiência energética ou de mobilidade sustentável. São estes temas emergentes que obrigarão a novas competências e a uma reorganização das chamadas engenharias tradicionais que predominaram durante o século XX.

 

“A atual pandemia veio expor algumas das fragilidades das nossas cidades.”

 

Já se ouve falar, por exemplo, dos Empregos Verdes, especificamente ligados à sustentabilidade, porque são as próprias empresas as primeiras interessadas em adotar as melhores práticas ambientais, por saberem que isso lhes poderá trazer um maior retorno. O setor das energias renováveis será, sem dúvida, uma área de negócio que registará um forte crescimento. É urgente que o setor florestal comece a ter a atenção que merece, nomeadamente no âmbito do combate às alterações climáticas, seja pela via da prevenção dos incêndios, seja por se constituírem como importantes sumidouros de dióxido de carbono, seja também pelo contributo que desempenham na preservação da biodiversidade.  A conjugação virtuosa da IoT com a IA ajudará à afirmação e consolidação das smart cities, que irão permitir uma gestão mais eficiente das cidades e contribuirão para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Por sua vez, a descarbonização do setor dos transportes e a adoção de um novo modelo de mobilidade mais personalizada, mais autónoma, mais conectada e mais ecológica irão, por certo, revolucionar a forma como nos iremos deslocar nas cidades e não só. Por aqui se vê as imensas oportunidades que se colocam aos engenheiros num futuro que já anda por aí…

A atual situação pandémica veio trazer um novo olhar do litoral em relação ao interior, sobretudo no estilo de vida, no contacto com a natureza, etc. Este reconhecimento nas virtudes do interior será apenas passageiro ou poderá criar, ou consolidar, oportunidades no desenvolvimento destas regiões?

A atual pandemia veio expor algumas das fragilidades das nossas cidades. Falta saber se não estaremos no limiar de uma eventual reversão do processo global da urbanização, com o campo e as cidades médias a ganharem uma nova importância, até por força da opção crescente pelo teletrabalho. O momento que vivemos poderá constituir-se numa oportunidade para o mundo rural, no contexto da valorização dos seus produtos locais. Mas, para isso, é importante aumentar o peso do setor empresarial e das atividades locais na produção e valorização dos produtos da região.

Também acredito que esta pandemia será uma excelente oportunidade para as cidades se reinventarem e modernizarem com vista a captarem empresas e criarem emprego qualificado, o que só será possível se houver a coragem de romper com modelos urbanos que vigoraram durante o século XX e que mostram estarem já ultrapassados. É necessário tornar as cidades e vilas mais humanizadas e ajustadas aos valores do século XXI. É importante devolver às pessoas muito do espaço que foi capturado pelo automóvel. Não podemos ignorar, conforme nos diz o arquiteto e urbanista Jan Gehl, que “a maior atração das cidades são as pessoas e, consequentemente, as trocas que ocorrem no espaço público.”