Hernâni Dias: “O litoral continuará, necessariamente, a ganhar vantagem sobre o interior”

 Olhando para o desenvolvimento que a região teve nos últimos 10 anos, qual a perspetiva para os próximos 10 anos? Especificamente, no que diz respeito a obras públicas em geral, infraestruturas, em particular e investimentos privados na região, o que está em falta?

Sabemos que nas últimas décadas o desenvolvimento da região e a sua infraestruturação têm ficado a cargo das autarquias que, com orçamentos limitados, mas com elevadas taxas de captação de fundos comunitários, têm tido a capacidade de realizar obras de relevo. Perspetivo que, infelizmente, o cenário para os próximos anos não seja muito diferente daquilo que tem sido os últimos anos, com o ónus do investimento a recair sobre os Municípios e a terem que ser estes a desenhar um pacote de atrativos fiscais e regalias que permitam ao investidor, sentir que vale a pena apostar nestes territórios.

“Não queremos ser vistos como os “coitadinhos” do país, até porque damos provas do contrário, no entanto, se as políticas ditadas pela capital tivessem em atenção a tão desejada coesão territorial, seria uma ajuda importante.”

Falta-nos investimentos privados capazes de criar centenas de postos de trabalho e que contribuam para o desenvolvimento económico do concelho. Ao nível das infraestruturas falta aquilo que vimos reivindicando há décadas: a ligação à Puebla de Sanabria, ampliação do Aeródromo e transformação em Aeroporto Regional, ligações distritais e aposta na ferrovia e no regadio, entre outras.

O atual Plano de Recuperação e Resiliência, recentemente apresentado pelo Governo, atende às necessidades do interior e em particular dos distritos de Bragança e Vila Real?

Claramente que não. Foi criada alguma expectativa sobre cidadãos, empresas e poder local, de que este Plano poderia, efetivamente, trazer um conjunto de medidas que ajudassem a alavancar os territórios ditos menos desenvolvidos e a proporcionar um desenvolvimento harmonioso e coeso do país, que permitisse convergir nos vários indicadores, mas tal veio a revelar-se uma falácia.

 

“As empresas de Engenharia e profissionais do ramo desta Região,

não devem desprezar o facto de termos uma porta aberta para a Europa”

 

Este Plano está vocacionado para grandes investimentos públicos nas grandes urbes votando, uma vez mais, o Nordeste Transmontano, à sua capacidade de resistência e resiliência. A litoralização do território contínua em curso podendo, no limite, levar o país a afundar-se.

Quais os desafios e oportunidades para os engenheiros e para as empresas de engenharia da nossa região, nos próximos anos, quando comparados com a realidade do litoral? 

Por tudo o que referi anteriormente, perspetiva-se que, no que respeita a obras públicas, o litoral continuará, necessariamente, a ganhar vantagem sobre o interior, com o Governo a patrocinar grandes investimentos, o que do ponto de vista teórico também abrirá mais oportunidades a quem reside ou tem sede nas imediações.

 

“Assim o Poder Central tivesse a mesma visão e, também, coragem para inverter o enraizado sentido das políticas (centralistas), o que poderia originar uma viragem muito importante no desenvolvimento integral do país.”

 

Contudo, empresas de Engenharia e profissionais do ramo, desta Região, não devem desprezar o facto de termos uma porta aberta para a Europa, mais concretamente para Espanha, que nos oferece um mercado de mais de 40 milhões de habitantes e um conjunto de oportunidades nas áreas das obras e infraestruturação, basta termos vontade e capacidade de internacionalizar. Por outro lado, os Municípios vão continuar aquilo que sempre têm feito – executar o investimento possível e implementar políticas que permitam fomentar o desenvolvimento e a economia.

Quais as áreas de oportunidade para a engenharia no futuro próximo? Ambiente? Economia circular? Energia? Modos Suaves? Urbanismo?

Quase me atreveria a dizer que todas! A Engenharia está em tudo quanto vemos e fazemos, no entanto, face à constatação da escassez ou finitude de alguns recursos naturais e à saturação do planeta, não podemos disfarçar que, atualmente, as questões ligadas à temática da proteção ambiental têm que ser valorizadas. Nas últimas décadas temos assistido a uma evolução vertiginosa de alguns utilitários e ferramentas que vieram simplificar o nosso dia-a-dia. Urge, agora, que o mercado se reajuste e comece a integrar, de forma mais ativa, em todos esses instrumentos, a componente “eco”, ”bio” ou “verde”, pelo que os engenheiros terão uma oportunidade de aí desempenhar um papel fundamental.

A atual situação pandémica veio trazer um novo olhar do litoral em relação ao interior, sobretudo no estilo de vida, no contacto com a natureza, etc. Este reconhecimento nas virtudes do interior será apenas passageiro ou poderá criar, ou consolidar, oportunidades no desenvolvimento destas regiões?

É um facto que a atual situação pandémica permitiu confirmar aquilo que já há muitos anos, políticos e decisores locais vêm apregoando, de que estes territórios são de excelência, essencialmente no que toca a atração de turismo diferenciado e de qualidade. Quero acreditar que este reconhecimento se constituirá, no futuro, como uma oportunidade de desenvolvimento. Recordo que, no mês passado, saiu um estudo (Iberinform) que diz que nos dois primeiros meses de 2021, houve um decréscimo de insolvências em Bragança de -63,6%. Da mesma forma, recentemente (novembro de 2020), foi dado a conhecer um outro estudo (Informa D&B) que, numa análise regional à constituição de novas empresas desde o final do 1.º estado de emergência, identifica o distrito de Bragança como aquele onde mais empresas foram criadas (32%), em contraste com uma quebra significativa dos territórios do litoral. Isso diz muito daquilo que a iniciativa privada perspetiva para o futuro. Assim o Poder Central tivesse a mesma visão e, também, coragem para inverter o enraizado sentido das políticas (centralistas), o que poderia originar uma viragem muito importante no desenvolvimento integral do país.