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(Com Vídeo) Mira Amaral: a economia, o futuro e os engenheiros

Conversas online 3 Junho, 2020

Mira Amaral conduziu a conferência sobre a Economia no pós covid com grande enfoque no papel das Estado e das empresas, mas também de engenheiros, doutorados e empresários em geral. Mira Amaral assume que uma segunda vaga pandémica seria “o fim da macacada” para a Economia.

 

 

Mais uma conferência conduzida por Joaquim Borges Gouveia que lembrou que Mira Amaral “é um profundo conhecedor da realidade empresarial portuguesa, uma pessoa super atenta à evolução tecnológica, inovação, empreendedorismo, novos modelos de negócios, toda esta problemática que está hoje, novamente, em grande mudança.” Já Poças Martins, presidente da OERN lembrou que “Hoje temos pela primeira vez um engenheiro que é também muitas outras coisas: economista, gestor, político. O facto de termos reunido pessoas da cultura, filósofos, médicos, entre outros, tem-nos permitido perceber que há várias formas de olhar para a mesma realidade, ninguém tem de facto a resposta, mas nós, enquanto engenheiros, somos muito racionais e conseguimos integrar bem a informação transformando-a em conhecimento e em ação.”

 

O que Mira Amaral disse…

(O convidado disponibilizou  documentos de apoio. Download aqui e aqui)

 

 

Sobre os Impactos Covid (oferta e procura)

O aparecimento da Covid levou a uma paragem forçada do turismo, lazer e entretenimento, mas a reação dos governos foi mesmo encerrar a economia. Ao fazerem isso causaram um choque tremendo na oferta e procura. Ora os choques negativos destes dois lados da Economia geram uma ameaça de ressecção bastante grave, portanto os governos tiveram de agir garantindo apoio às empresas e às famílias. No caso de Portugal teremos um aumento da dívida pública na ordem dos 130%. A esperança é que a Economia recupere no próximo ano, que irá depender da recuperação europeia (países para os quais exportamos).

 

Sobre as disrupções tecnológicas e mudanças dos modelos de negócios

Já havia esta tendência para as disrupções tecnológicas e mudanças dos modelos de negócios, a Covid apenas veio acelerar todo este processo. Num mês e meio houve mais mudanças tecnológicas que em 4 ou 5 anos.

 

“Todos percebemos que não é boa ideia estar dependente de um único fornecedor,

como quase todo o mundo fazia com a China.”

 

O teletrabalho, o comércio eletrónico, os pagamentos digitais, a telesaúde, tudo isto foi acelerado. Há ferramentas tecnológicas que ajudam a que a produção industrial possa voltar a mercados mais próximos. A robótica, a automação e a impressão 3D facilitam essa produção. Todos percebemos que não é boa ideia estar dependente de um único fornecedor (como quase todo o mundo fazia com a China).

 

Sobre o Mundo pós-covid

A competição entre a China e os Estados Unidos irá aumentar, nomeadamente no domínio tecnológico, domínio da inovação, domínio da inteligência artificial. As empresas que recorreram ao financiamento serão empresas mais endividadas no pós-covid. Portanto serão precisos fundos de recapitalização dessas empresas.

 

Sobre a resposta Europeia

Primeiro houve o pacote de emergência aprovado, que tinha 100 milhões de euros para apoio de emprego e subsídio de desemprego. Depois para as PME (pequenas e médias empresas) foram aprovados 200 mil milhões de euros. O Mecanismo Europeu de Estabilidade disponibilizou 200 milhões de euros.

Portugal, Itália e a Grécia terão aumentos da dívida publica muitíssimo altos 130%, 160% e 200% respetivamente. Portanto aqui será fundamental os apoios do Banco Central Europeu.

 

“Penso que Portugal terá aqui uma nova grande oportunidade,

com muito dinheiro para a recuperação da economia portuguesa.

Oxalá o Governo saiba aproveitar esta oportunidade.”

 

A Comissão Europeia propôs um novo programa, Next Generation EU, que são 750 mil milhões de euros, em que 500 mil milhões serão a fundo perdido e 250 mil milhões emprestados aos Estados Nacionais. Isto será pela primeira vez uma grande emissão de dívida europeia. Contudo esta dívida terá de ser paga entre 2028 e 2050.

No geral penso que Portugal terá aqui uma nova grande oportunidade, com muito dinheiro para a recuperação da economia portuguesa. Oxalá o Governo saiba aproveitar esta oportunidade. Este dinheiro terá de ser aproveitado para apoiar as empresas de bens transacionáveis, pois só através destas é que conseguiremos crescer. Só com mais empresas e mais exportações teremos rendimentos para aumentar o consumo e o nosso mercado doméstico.

 

Sobre os apoios às empresas e a diversificação geográfica

Num mundo teórico ideal, as empresas que já não eram viáveis antes da crise, não deviam de ser apoiadas, que só prejudicam e empatam as empresas viáveis e a concorrência. A questão que está aqui em causa, é a viabilidade económica antes da crise. É evidente que na prática, devido à urgência, isto não vai ser assim. A grande questão é então, apoiar empresas que eram viáveis antes da crise e que aparecem, de facto, com dificuldades, quer económicas, porque perderam mercados, quer financeiras. No meio disto, há empresas que não precisam de apoios públicos.

 

“As empresas que orientaram a sua cadeia de produção para fazer produtos pós covid e entraram no domínio da saúde, se calhar, podem manter-se

 

Há aqui coisas que estávamos a fazer bem para os mercados europeus, que vão continuar no pós covid, porque eles vão ser reanimados. Os nossos produtos que eram bem assentes nestes mercados, obviamente vamos mantê-los. Mas não podemos esquecer outros mercados que estão a crescer bastante e que, aliás, estão a ser objeto de acordos comerciais com a União Europeia, que são os tais mercados fora da zona euro para uma diversificação geográfica. Agora aqui há uma questão fundamental, é que quando estamos dentro da União Europeia, os riscos são menores e, portanto, as garantias de estado e os seguros de crédito à exportação são muito importantes e o nosso país nesta matéria falhou em relação aos governos dos países nossos concorrentes. Há aqui possibilidade de alguma diversificação geográfica e obviamente, como a crise mostrou, as empresas que orientaram a sua cadeia de produção para fazer produtos pós covid e entraram no domínio da saúde, se calhar, podem manter-se, não no senso de emergência, mas fazer produtos para a área da saúde que não faziam previamente. Há aqui ótimas oportunidades de diversificação de produtos e diversificação de geografias.

 

 

“E se houver uma nova vaga com a dimensão da anterior? Eu não vos sei responder.

As economias não aguentam um novo lockdown. Se houver houver uma segunda vaga é o fim da macacada. ”

 

Eu acho que a pandemia veio enfatizar é que não se deve colocar os ovos todos no mesmo cesto, portanto, esta história de ir toda a produção industrial para a China e nós ficarmos dependentes de um único país, nunca era boa ideia, mesmo antes da pandemia.

Os Estados Unidos, em certos setores, perderam competências por levarem as produções para a China. Portugal sendo um país com boas condições sanitárias, com passe social e gente competente, e sobretudo Engenheiros altamente qualificados, temos aqui uma oportunidade única de sermos candidatos credíveis a estratégias de nearshoring e obviamente que os fundos europeus podem ajudar.

 

Sobre a Economia e uma nova vaga pandémica

É evidente que eu acho que pode haver uma nova vaga mas já não será da dimensão da anterior, e já não vai haver o lockdown da economia como houve previamente. Se houver uma nova vaga com a dimensão da anterior? Eu não vos sei responder, porque as economias não aguentam um novo lockdown, com as dívidas públicas a subir exponencialmente. Se houver houver uma segunda vaga é o fim da macacada. O que é preciso é gerir o desconfinamento com maior bom senso nesta matéria e havendo casos pontuais como estamos a ter na zona de Lisboa, é preciso gerir o desconfinamento com alguma lentidão e alguma moderação, para evitar uma segunda vaga igual à anterior. Nem quero prever uma hipótese dessas.

 

Sobre as oportunidades da Engenharia

Os engenheiros eletrotécnicos, toda a parte eletrónica e digital vai ter uma grande evolução. Faltavam dramaticamente não só engenheiros, mas sobretudo quadros intermédios especializados, com competências digitais, particularmente evidente no setor metalomecânico. As áreas da engenharia ligadas a estas coisas obviamente têm aqui um grande futuro.

 

“Se há setor que já antes da pandemia, a meu ver,

estava a ser extremamente interessante a nível mundial, era a agroindústria.”

 

Mas não só, as ciências da vida, ligadas à saúde, também. Esta área das ciências da vida não foi afetada, está a ser reforçada com novas ideias. Obviamente tudo ligado à saúde e a indústria farmacêutica vai sair muito reforçada com esta pandemia. Por isso vejo aqui duas áreas óbvias, as tecnologias de informação e eletrónica e todas as tecnologias da indústria 4.0 e depois as ciências da vida. Se há setor que já antes da pandemia, a meu ver, estava a ser extremamente interessante a nível mundial, era a agroindústria. Esta combinava de uma maneira que nenhuma outra combinava, as tecnologias de informação, todas estas tendências da tecnologia 4.0, com as ciências da vida. Estas empresas do agrobussiness tem de dominar porque trabalham com inputs agrícolas, tem de saber como está o estado do tempo, como varia, como está a bicharada, portanto, trabalham com inputs com muita maior variabilidade do que os inputs da indústria metalomecânica. Estas empresas tinham percebido que esta área altamente promissora e de grande desenvolvimento de indústria 4.0 que é a área de tratamento de dados tinha grande potencial no agrobussiness e, portanto, estas empresas juntam, a meu ver, de uma forma extremamente feliz as tecnologias de indústria 4.0 com as competências no domínio das ciências da vida, das biotecnologias e das biologias. E a agroindústria, em Portugal, é dos setores que está a ver mais frente de desenvolvimento e, portanto, também vai ter um grande futuro.

 

Sobre doutorados nas empresas

Não estou a dizer que vamos encher, de um dia para o outro, todas as empresas de doutorados para a indústria, mas este caminho que já começou, deve continuar. As empresas que introduziram doutorados é um sucesso e doutorados que conseguem desenvolver produtos e, portanto, fazem a inovação tecnológica de produtos. Se não fizermos nada, não passamos desta cepa torta.

 

“Temos de injetar mais massa de gente nas empresas,

o Estado pagar o salário durante um ano”

 

Há uma diferença entre investigação e inovação. Na investigação, gastamos dinheiro para criar conhecimento, na inovação aplicamos o conhecimento para ganhar dinheiro. Portanto, uma PME não pode fazer investigação, mas tem ambição e deve ter a capacidade de fazer inovação, e para isso precisa de ter o mínimo de massa cinzenta qualificada. Deve-se, também, aumentar o número de bolsas de doutoramento e de mestrado feitas em ambiente empresarial, isto é fundamental. Maior força de ligação entre universidades e empresas. Uma universidade ou instituto politécnico para contribuir para o sistema de inovação da sua região, têm que se ligar, obviamente às empresas da região, como está a fazer o Instituto Politécnico de Leiria, do Politécnico do Porto, e fazem o Minho, Aveiro, UTAD, já vai fazendo a FEUP. Este caminho tem de ser continuado e reforçado e precisa de ajuda pública, forte.

“Quando temos a oportunidade do turismo temos de desenvolvê-la,

mas convém não termos uma dependência do turismo tão grande como tínhamos.”

 

Inovações de processo também são importantes nas empresas. E também é importante inovar no modelo de negócio ou nas relações com clientes e fornecedores e depois a inovação organizacional que também é importante. Inovação de produtos, precisamos de gente mais qualificada nas empresas, embora algumas já vão fazer, mas o caminho faz-se caminhando.

 

Turismo

Esta crise mostrou-nos que o turismo é muito bonito, ocupa 15% do PIB, mas quando há uma pandemia destas o turismo acaba. Portanto, isso significa que nós quando temos a oportunidade do turismo temos de desenvolvê-la, mas convém não termos uma dependência do turismo tão grande como tínhamos. Pelo lado positivo mostra que temos de apostar na indústria, para que esta volte a ter uma componente mais importante do PIB.

 

“A pandemia mostrou que um país 

que tenha 15% do PIB associado ao turismo é altamente vulnerável.”

 

É evidente que se a indústria crescer, o turismo também pode crescer, mas em termos percentuais a percentagem ser menor. No entanto até acho que o turismo está a recuperar mais rápido do que eu esperava, já vemos que há turistas estrangeiros no Algarve e vejo alguns hoteleiros a dizer que esta esta época de junho e julho pode não ser completamente perdida. Penso que Lisboa pelos problemas que ainda tem com a pandemia, a sua recuperação no turismo irá ser mais lenta até porque as oportunidades não estão a abrir em Lisboa como está a acontecer no Algarve. Portanto a visão que era muito pessimista sobre o turismo e hotelaria do pós-covid, pelo menos Algarve e também na Madeira em que algumas coisas já estão a abrir, não será tão negativa como se pensou.

 

Sobre os fundos Europeus

Citando outro colega e amigo, Luís Todo Bom, escreveu ontem que “em 45 anos de democracia só houve dois programas estruturados para a indústria portuguesa, o PEDIP e o Projeto Porter”.

Portanto o que ele propõe é “um novo PEDIP, de base tecnológica, com grande incorporação de inovação e aposta nas cadeias de valor, com parcerias internacionais com players de referência nos vários sectores, e com um programa de reforço dos capitais próprios e de crescimento, em dimensão – financeira, produtiva e tecnológica, das empresas nacionais” e também “Um novo Projecto Porter, também de base tecnológica, que identifique e robusteça os clusters tecnológicos em que o país já tem uma presença razoável – materiais, biotecnologia, TIC, ciências da saúde, mobilidade, aeronáutica , que reforce as competências dos parques e centros tecnológicos sectoriais, e que, simultaneamente, promova o upgrade tecnológico das indústrias tradicionais, com uma maior integração da robótica, impressão 3D e inteligência artificial”. Nós estes clusters já os temos, estão é pouco consolidados, precisamos é de impulsioná-los.

Portanto se seguirmos estas sugestões, do Luís Todo Bom, eu acho que os fundos serão bem aproveitados.

 

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Edição e texto: Catarina Soutinho | Transcrição: Sofia Vieira e Inês Miranda | Design Gráfico: Melissa Costa