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[Entrevista] Tiago Rebelo, Diretor no CEiiA

Colégio Mecânica 18 Maio, 2020
Uma entrevista promovida pelo Colégio de Engenharia Mecânica – Norte, em exclusivo para o HaEngenharia.pt da OERN.

 

Foi uma das notícias mais aplaudidas durante a primeira fase de combate à Covid-19. Engenheiros portugueses criavam o ventilador ATENA  e com ele traziam esperança renovada para centenas pessoas.

Tiago Rebelo, Diretor da Unidade de Desenvolvimento de Produto e Serviço do CEiiA – Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto fala-nos um pouco deste caminho (curto) entre a ideia e a concretização do projecto e lembra que no CEiia “considerou-se que não existia prioridade maior do que a de poder ajudar numa batalha da grandeza da que estávamos a travar”. Com isto em mente surgiu então o ATENA.

 

 

Como surgiu a ideia de produzir os ventiladores ATENA para os hospitais Portugueses?

A ideia de desenvolver o Atena surgiu nas nossas reflexões internas de “Intuir o Futuro”. São sessões realizamos com base em informação limitada para projetar tendências. Foi precisamente a partir deste tipo de trabalho que há 14 anos projetámos a mobilidade elétrica ou, mais recentemente, a “urban air mobility”. Nas sessões “Intuir o Futuro” identificamos, num determinado contexto social, económico e ambiental, uma tendência que possa gerar uma nova oportunidade para o desenvolvimento de um produto e/ou de um serviço. E, a partir daí, construímos cenários e definimos planos de desenvolvimento e de ação. Na sequência da análise do atual contexto tínhamos por base uma ameaça associada. Por um lado, a escassez de ventiladores invasivos no mercado internacional e, por outro, a dependência das cadeias de fornecimento centradas essencialmente na Ásia.

É sabido que, no combate à pandemia de COVID-19, intensificou-se um pouco por todo o Mundo a corrida a equipamentos ventiladores pulmonares, tendo, em meados de março, o Governo português agregado esforços para rastrear os equipamentos existentes em Portugal, bem como criar condições para desenvolver e produzir ventiladores. Sendo factual que a falta de ventiladores era uma das maiores dificuldades no combate à COVID-19, que provoca problemas respiratórios graves e, potencialmente, mortais. De facto, segundo a OMS, 14% dos infetados com COVID-19 têm pneumonia e 5% evoluem para estado muito crítico, evoluindo para uma pneumonia intersticial bilateral, que ataca os dois pulmões e que faz com que o doente necessite de ventilação invasiva para conseguir respirar e combater a doença.

Perante este cenário, o CEiiA, enquanto Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto, com uma agenda orientada para dar respostas a desafios societais complexos, decidiu adaptar as suas competências e capacidade de produtização (da conceção à industrialização) para a sua aplicação em meios e equipamentos considerados decisivos no combate aos efeitos da doença. Com uma capacidade de engenharia alocada a vários projetos de desenvolvimento em áreas tecnologicamente avançadas (mobilidade, automóvel, aeroespacial, entre outras), considerou-se que nesse momento não existia prioridade maior do que a de poder ajudar numa batalha da grandeza da que estávamos a travar.

 

 

Contudo, o desenvolvimento de um produto complexo com as características de um ventilador invasivo não pode ser realizado por uma única organização, nem mesmo sem o envolvimento de quem usa e sabe. Neste caso, o envolvimento da comunidade médica especializada (intensivistas, pneumologistas, anestesistas e internistas) de várias instituições hospitalares públicas e privadas, de Norte a Sul do país, bem como universidades desta área, em especial a Escola de Medicina da Universidade do Minho, juntamente com as competências de engenharia do CEiiA, permitiu entender e definir os requisitos funcionais essenciais ao quadro de tratamento clínico do COVID-19 para a construção de um produto em linha com os standards de conformidade hospitalar. Foi neste contexto que surgiu o projeto Atena com a ambição de desenvolver, produtizar e industrializar um ventilador médico invasivo, inovador, capacitado para dar suporte a doentes em falência respiratória aguda, como a associada à COVID-19, no curto prazo, e permitir a sua evolução em novas versões com a maior incorporação nacional possível.

 

Quais são as áreas da Engenharia que intervêm no desenvolvimento e produção dos ventiladores?

Tratando-se um ventilador médico invasivo de um equipamento complexo, o seu desenvolvimento carece de uma equipa de engenharia multidisciplinar, capaz de enfrentar os desafios associados ao desenvolvimento dos diferentes subsistemas que compõem o produto. No desenvolvimento e produção dos ventiladores Atena são de realçar as áreas da engenharia associadas à Mecânica, aos Materiais, ao Software, à Eletrónica e aos Sistemas Embebidos.

 

 

Que estimulo dá à indústria e à Economia Portuguesa, um projeto como o ATENA?

A evolução do ventilador Atena enquanto produto certificado CE, permitirá abordar o mercado global de ventiladores, estruturando uma nova linha de produtos médicos desenvolvida e produzida em Portugal, com exportação no mercado global. O projeto Atena que já incorpora na versão atual 50% dos seus componentes de fabrico nacional, permitirá estimular a economia nacional no curto, médio e longo prazo. A criação de uma nova linha de produtos médicos made in Portugal permitirá alicerçar uma economia de valor acrescentado de base em conhecimento.

 

 

Os Portugueses podem orgulhar-se da Engenharia Nacional?

A engenharia nacional já deu provas da sua capacidade em múltiplas áreas de atuação e distintos mercados, desde o automóvel, ao espacial, passando pelo aeronáutico. O ventilador Atena é mais um exemplo da capacidade dos nossos engenheiros que, alicerçando as capacidades técnicas, à resiliência e à dedicação, têm capacidade para enfrentar qualquer desafio. Os Portugueses podem orgulhar-se da ciência e da tecnologia que se desenvolve em Portugal em múltiplos setores de atuação. A engenharia é, sem dúvida, uma das áreas de excelência do nosso país.