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“Estaremos muito melhor preparados para uma próxima grande crise global”

Colégio Civil 19 Maio, 2020

 

Nome: Nuno Miguel de Sousa Vieira;

Idade: 39 anos;

Empresa onde trabalha: Agremarco- Construção Civil, LDA

Função: Gerente

Obra ou obras que está a desenvolver neste momento e onde: Todas as obras da empresa em Portugal, França e Bélgica;

 

As atuais restrições na Bélgica devido à Covid-19 tiveram impacto na sua atividade profissional? A que nível?

Para a empresa onde trabalho, a Agremarco, ser uma empresa de construção é uma realidade bem mais evidente do que para outras, já que a nossa força motriz são mesmo os nossos colaboradores, as nossas pessoas. 80% dos nossos colaboradores estão mesmo afetos à produção, não temos uma realidade em que subcontratamos a nossa mão-de-obra, nem somos meramente uma empresa de gestão de projetos, pelo que sabíamos de antemão que as restrições que se adivinhavam podiam ter um sério impacto na nossa atividade e na estabilidade emocional dos nossos colaboradores deslocados. Desde o final de Fevereiro que se foi vivendo, um pouco por toda a Europa, um receio crescente pela pandemia que se espalhava pela Europa e que devastava Itália e Espanha e estávamos todos à espera que fossem tomadas medidas sérias. Assim, foi no início de março que começámos a desenvolver o nosso plano de contingência, ainda sem sabermos que tipos de medidas seriam tomadas. Devido à cultura de termos uma forte atividade no estrangeiro e distante dos serviços centrais, todos os nossos procedimentos e arquivo documental estão alojados em serviços cloud, para algumas funções o teletrabalho estava assegurado.

No entanto, a nossa presença internacional constituía também um desafio, pois caso fosse imposta uma quarentena obrigatória, não queríamos sujeitar os nossos colaboradores a ficarem deslocados, mais de 1 mês, sem a família fechados em casa, pelo que preparamos desde cedo um plano de repatriamento, fomos consultando regularmente as embaixadas de França, Espanha e Bélgica e preparamo-nos com a documentação necessária, para a eventualidade de ser impossível regressar de avião e termos de o fazer de carro.

“Preparamos desde cedo um plano de repatriamento, fomos

consultando regularmente as embaixadas de França, Espanha e Bélgica

e preparamo-nos com a documentação necessária, para a eventualidade

de ser impossível regressar de avião e termos de o fazer de carro.”

 

Foi então no dia 17 de março, que as autoridades cometentes na Bélgica decretaram de forma muito ambígua que todas as empresas que não pudessem assegurar o distanciamento social entre os seus trabalhadores teriam de encerrar a sua atividade e que no dia seguinte a partir das 12:00 um estado de quarentena seria decretado. Ainda na noite do dia 17 de Março conferenciamos com os nossos clientes, grande parte deles ia encerrar as obras por ser muito ambígua a medida anunciada e outros entenderam que não iríamos arriscar-nos a ficar com os nossos colaboradores retidos na Bélgica apenas com 90% da produção parada. Os nossos colaboradores regressaram no dia 18 de março e pudemos começar a retomar a nossa atividade apenas no dia 20 de Abril. Foi um trabalho intenso, de rever todos os procedimentos básicos e nos quais nunca pensamos, por serem tão naturais, de forma a ter a certeza de que conseguimos realizar as nossas atividades com 1,5 metros de distanciamento entre os nossos colaboradores. Os clientes foram incansáveis também e contribuíram muito para termos conseguido reabrir uma das nossas maiores obras já na segunda -feira passada. Até agora os procedimentos estão a ser adotados e estamos a conseguir respeitar o distanciamento social obrigatório. No entanto, não podemos esconder que tivemos uma grande quebra de faturação, muitos dos nossos compromissos e planeamentos foram afetados e a nova realidade trabalho é ainda desconhecida, ao alterarmos os métodos de trabalho, alteramos também os rendimentos conhecidos, cujo impacto ainda não conhecemos.

Do ponto de vista pessoal, na minha atividade, o impacto que estas medidas tiveram foi muito forte. Considero ser um ponto importantíssimo do meu trabalho enquanto gestor, que é o acompanhar de perto todos os meus parceiros de negócios, colaboradores e atividades. Suspendi todas as viagens e reuniões presenciais. Este ponto tem um impacto enorme na forma como nos relacionamos com os clientes e fornecedores, as soft skills deixam de ter o mesmo peso ou têm de usar usadas de forma diferente e as estratégias de negociação têm de ser completamente revistas.

“O acompanhamento do trabalho desenvolvido pelos colaboradores e

pelos colegas deixa de ser tão próximo, mas também conseguimos

mais autonomia e menos dependência de reuniões pouco produtivas.

No entanto, continuo a ser grande defensor do contato humano

e de todas mais-valias que daí advêm.”

 

Que medidas tomou para se manter no ativo e o seu posto de trabalho?

As medidas passaram principalmente pelo reforço de ferramentas que já todos utilizávamos, ferramentas de colaboração remota, e-mail, serviços na cloud, videoconferências, etc. Nas funções que desempenho, devido ao facto de estar constantemente a viajar, as ferramentas de colaboração remota eram já uma presença constante na minha vida, já que as solicitações por parte de clientes e colaboradores não cessam só porque estou deslocado.

 

Terminada esta fase, como irá adaptar-se para retomar o seu trabalho em pleno?

Não creio que a minha função vá necessitar de uma grande adaptação para poder retomar em pleno a minha atividade. De facto, creio que a carga de trabalho atual e os desafios que esta pandemia lançou exigem mais de mim. Sinto que muito provavelmente o impacto da necessidade de uma organização da agenda muito mais cuidada se irá manter e sinto que a autonomia que a empresa desenvolveu, vão solicitar menos a minha presença física, mas sinto também que o profundo efeito ao nível da revisão de procedimentos de produção será para se manter, pelo que espero poder retomar as viagens logo que possível, para poder acompanhar de perto os nossos estaleiros e as nossas equipas.

 

Na sua opinião, que efeitos terá este período na atividade do Engenheiro Civil?

O engenheiro civil enquanto projetista e enquanto gestor de projetos vai ter de optar por procedimentos e técnicas que permitam o distanciamento social dos operários envolvidos na construção e isto, de forma permanente. Quem trabalha no desenvolvimento de soluções de equipamento vai ter um grande desafio, o de desenvolver soluções que permitam que o trabalho seja desenvolvido por um operário apenas. E todos os engenheiros civis vão certamente tornar-se mais eficientes no domínio de ferramentas de colaboração à distância.  Certamente que também iremos assistir a uma alteração da compartimentação e distribuição programática dos edifícios e uma preocupação crescente com a minimização do risco de contaminação biológica, com incidência nos sistemas de AVAC e na escolha de equipamentos para as instalações sanitárias.

“Todos os engenheiros civis vão certamente tornar-se mais

eficientes no domínio de ferramentas de colaboração à distância.”

 

Que recomendações, sugestões ou tipo de ações entende que poderão minimizar o impacto negativo na Engenharia Civil?

Ceio que não podemos falar de um impacto negativo na Engenharia Civil se a entendermos como ciência que dá resposta às necessidades do mundo e da sociedade. As necessidades da sociedade é que sofreram uma grande alteração, que não pode, nem deve ser considerada negativa, mas que não deixa de poder ser considerada como uma quase disrupção. Creio que a Engenharia Civil vai passar certamente por um período de adaptação e vai precisar de perceber quais são estas novas necessidades, para poder responder da melhor forma, com arte e engenho a estas solicitações.

“Creio que a Engenharia Civil vai passar certamente por um

período de adaptação e vai precisar de perceber quais são estas novas necessidades”

 

A Economia está a sofrer e vai continuar a sofrer um impacto enorme e muitas das atividades económicas que conhecemos vão deixar de existir da mesma forma. Não tenho dúvidas que perante este cenário, a promoção imobiliária, está a sofrer um grande impacto, já que neste momento ninguém está preocupado em adquirir uma nova casa, nem em adquirir um novo espaço comercial para montar um novo negócio no meio desta incerteza. Acredito também que o comércio a retalho que dependa de lojas físicas, tais como os grandes centros comerciais vão sofrer um impacto negativo enorme, pois o crescimento do comércio online está visível aos olhos de todos. Sabemos que as grandes barreiras para o comércio online eram certamente o receio dos consumidores pelo desconhecido, no entanto, esta pandemia obrigou muitos destes consumidores a experimentarem o comércio online e não acredito que passadas estas restrições os hábitos de consumo voltem a ser os mesmos. Vai haver necessidades e oportunidades na adaptação de edifícios e espaços existentes, para a Engenharia Civil, certamente.

 

“Não tenho dúvidas que perante este cenário, a promoção imobiliária, está a sofrer um grande impacto, já que neste momento ninguém está preocupado em adquirir uma nova casa, nem em adquirir um novo espaço comercial para montar um novo negócio no meio desta incerteza.”

 

Na área dos transportes, se estas pandemias se tornarem frequentes, vamos assistir talvez a uma paradigmática redução do número de viagens e de viajantes e talvez seja necessário repensar as infraestruturas existentes, para as adaptar a menores volumes de tráfego e a menores volumes de passageiros por veículo, e entendo que esta necessidade de adaptação será também uma oportunidade. Espero não estar certo, mas temo também que esta instabilidade económica se transforme numa instabilidade política que obrigue a um reforço significativo do investimento na defesa por parte de vários países, o que se vai traduzir na necessidade de grandes obras de engenharia civil, no âmbito da defesa, como é o caso de vários projetos a que temos concorrido na Bélgica e na Finlândia e noutros mercados, em que cada vez mais, os edifícios públicos, estacões de metro e edifícios similares têm funções de salvaguarda da população em caso de ataques bélicos.

Que outra mensagem gostaria de deixar a quem irá ler esta entrevista?

Gostava de salientar que todos nós enquanto Engenheiros Civis, profissionais e cidadãos de um mundo em mudança devemos ter a consciência de que devemos revalidar e aumentar continuamente o nosso leque de competências, através de uma escolha criteriosa de ações de formação para aquisição de novas competências e revalidação das mesmas. Sinto que devemos todos estar preparados para um mercado cada vez mais internacional e cada vez mais feito de relações inter-pares. Devemos reforçar as nossas soft-skills, a inteligência emocional e é imperioso que vejamos o nosso trabalho como um serviço que é prestado não só aos nossos clientes, mas a todos os stakeholders e a toda a sociedade. Todos os engenheiros estão numa posição privilegiada para no seio das suas empresas, juntamente com os seus clientes, colegas e parceiros poderem criar valor, de forma sustentável e de forma a melhorar o mundo, mais do que isso, temos esta responsabilidade. É importante que tenhamos orgulho na nossa tradição, capacidade e competência, mas também que aceitemos e honremos esta responsabilidade sendo cada vez mais melhores profissionais e melhores como pessoas, para os nossos e para o mundo.

 

“Enquanto Engenheiros Civis, num mundo em mudança, devemos

ter a consciência de que devemos revalidar e aumentar continuamente

o nosso leque de competências, através de uma escolha criteriosa de ações de formação”

 

 Gostaria de deixar uma mensagem de esperança?

No contexto atual, creio que a melhor mensagem de esperança que posso deixar é a de que apesar de estarmos a viver tempos conturbados e com uma ansiedade permanente, não nos podemos esquecer de que estaremos muito melhor preparados para a próxima grande crise global que nos assolará. É normal referirmo-nos às gerações que passaram por grandes acontecimentos traumáticos e de crise, com as gerações que passaram pelos acontecimentos da I e II Guerra Mundiais, como gerações resilientes e de valor, a nossa geração é a geração que terá de responder aos desafios deste acontecimento global e vamos todos ficar mais fortes depois disto.

 

 

 

Perfil:

Nome: Maria da Conceição Rodrigues Costa

Idade: 58

Empresa:  Probetão, SA (Angola)

 

As atuais restrições devido à Covid-19 tiveram impacto na sua atividade profissional? A que nível?

A Probetão suspendeu a actividade industrial desde o dia 27 de Março, data em que foi declarado o Estado de Emergência em Angola. De igual forma, em todo o país, foi suspensa a actividade de construção civil, salvo raras excepções, execução ou finalização de obras necessárias no âmbito do plano de acção, definido pelo governo de Angola, de combate à Pandemia Covid-19. Contudo, em regime de teletrabalho a Direcção Comercial e a Direcção Técnica da Probetão asseguraram ao Mercado resposta às solicitações, nomeadamente orçamentos, serviço pós-venda, apoio técnico. Paralelamente a esta situação, constituímos uma equipa de piquete multidisciplinar que tem estado a salvaguardar os carregamentos e fornecimentos de diferentes produtos pré-fabricados de betão para obras que o executivo considerou essenciais e como tal não pararam tais como Clínicas e Hospitais.

 

“Constituímos uma equipa de piquete multidisciplinar que tem estado a salvaguardar os carregamentos e fornecimentos de diferentes produtos pré-fabricados de betão para obras que o executivo considerou essenciais e como tal não pararam tais como Clínicas e Hospitais.”

 

Que medidas tomou para se manter no ativo e o seu posto de trabalho?

Com o encerramento temporário da Probetão ao nível de produção e comercialização, foi necessário redirecionar o foco para questões macro da gestão da operação, e reanalisar a estratégia da atividade futura da empresa, criando diferentes cenários dado o elevado grau de incerteza que, não só a economia Angolana, mas todo o mundo enfrenta. As ferramentas de videochamada e acesso remoto (VPN) já eram usadas pelo Conselho de Administração da Probetão e são habituais na gestão diária da empresa, o que permitiu assegurar o retorno da actividade, no passado dia 27 de Abril, com as restrições decretadas pelo Governo de Angola. Estão a ser realizadas videochamadas com os responsáveis de cada área funcional, com o objectivo de coordenar acções, tendo por base os diferentes cenários estratégicos que a Administração está a analisar. Do ponto de vista de saúde, os números de infectados e mortes devido à Covid 19, em Angola, até à data são animadores. Mas devemos estar preparados para eventual agravamento da situação, desejando, contudo, que tal não aconteça. Algumas das actividades da AIMCA foram de forma idêntica asseguradas com recurso às ferramentas digitais já referidas, mas a Assembleia Geral foi adiada, assim como as reuniões presenciais das Comissões Técnicas, as de âmbito nacional, assim como a Assembleia Anual da Sadcstan. Senti necessidade de manter algumas rotinas, não só quanto a horários de trabalho, mas também, dentro das circunstâncias, adaptar algumas das práticas extra trabalho que pratico diariamente, tais como  exercício físico e leitura.

 

Terminada esta fase, como irá adaptar-se para retomar o seu trabalho em pleno?

Tal como mencionado anteriormente, nesta fase estamos a trabalhar em diferentes cenários para que em função da evolução da economia do país possamos colocar em prática a estratégia que melhor se adaptar à realidade que enfrentaremos.

“Angola em paralelo com um par de outros países a nível mundial,

para além das consequências económicas provocadas pelo COVID-19,

tem o acréscimo da quebra brutal do preço do barril do petróleo que se

tem verificado nas últimas semanas.”

Existem questões do ponto de vista macro económico que irão impactar na forma como a Probetão se irá posicionar no futuro, contudo acreditamos no futuro de Angola, e tal como definido no momento da criação da Probetão, o nosso propósito mantém-se inalterável. Em termos operacionais o reinício de actividade ocorreu no cumprimento do decreto presidencial de 24 de Abril passado, e que vigora até 10 de Maio. Toda a equipa está ansiosa por retomar a actividade e assim contribuir para o desenvolvimento do país. Assim foram adoptadas as medidas preconizadas na referida legislação que permitirão o rastreio de potenciais infectados, e também controlar cadeias de transmissão. Vamos procurar reforçar os meios de comunicação por vídeo e voz por forma de minimizar, tanto quanto possível, as interações físicas, com as excepções obvias inerentes ao atendimento comercial, que será em conformidade com as regras decretadas para o actual Estado de Emergência.

 

Na sua opinião, que efeitos terá este período na atividade do Engenheiro Civil?

Penso que esta Pandemia permitiu melhorias de processos e procedimentos que podem ser introduzidos na actividades da Engenharia Civil. Existem soluções que poderão ser implementadas com o objectivo de monitorizar à distância vários processos. Na pré-fabricação de betão, e tal como a Probetão tem vindo a implementar ao longo dos últimos anos, considero que é exequível privilegiar a digitalização da informação, numa lógica de Industria 4.0, que por sua vez permite às Direções uma monitorização dos processos à distância, sejam eles produtivos, laboratoriais, etc. Considero que este acelerar de implementação de novas metodologias, no que se refere ao betão, irá privilegiar e incrementar o uso da pré-fabricação, pela otimização de custos, gestão mais eficiente, e rapidez de execução.

 

Que recomendações, sugestões ou tipo de ações entende que poderão minimizar o impacto negativo na Engenharia Civil?

As necessárias deslocações ao local das obras e a interação com múltiplas pessoas, continuará a ser necessária, o que representa um risco acrescido face ao trabalhador que pode realizar teletrabalho. Nesta medida será importante (i) adoptar medidas de proteção rigorosas, não apenas nos locais de construção, mas também nos hábitos pessoais de cada um, e (ii) adopção de novas tecnologias que permitam acesso a informação fidedigna das obras, podendo isto ser feito através de novas ferramentas que encurtem a distancia entre o engenheiro civil e as equipas in situ. Para o meu caso, a retoma de aviação comercial é de extrema importância. Na África Austral, potencial mercado da Probetão as distâncias implicam longas viagens rodoviárias. Por outro lado, as relações comerciais com outros continentes por via marítima são viáveis para mercadorias mas incompatíveis para negócios.

 

Que outra mensagem gostaria de deixar a quem ler esta entrevista?

Ao longo da história a Engenharia tem permitido responder às necessidades das populações, decorrentes da natural vivência assim como em casos de excepção, nomeadamente guerra, sismos ou pandemias. Este é um tempo de mudança de comportamentos, de atitudes, de inovação, é necessário olhar para o futuro agarrando as oportunidades que surgem a cada dia.