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António Nogueira Leite: “Temos de ver se as obras públicas são úteis ou não”

Entrevista 20 Maio, 2020

A quinta conferência do “Há Engenharia fora da caixa” trouxe o tema Economia para discussão e António Nogueira Leite para explanar algumas perspetivas económicas para os tempos pós Covid-19.

 

Esta quinta conferência foi conduzida por Joaquim Borges Gouveia, Conselho Diretivo da Ordem dos Engenheiros – Região Norte (OERN), que na sua intervenção inicial lembrou que a Covid-19 “deixou-nos num período de ruptura e quando há rupturas tudo se altera.”

Poças Martins, presidente da OERN lembrou ainda que esta conferência acontece já numa altura em que começa a ser mais “Nós fora de casa”. “Estamos a passar por um período de desconfinamento. Quem neste momento toma decisões no nosso país e em todos os outros, têm de facto um travão, a saúde, e um acelerador, a economia”, conclui.

 

O que António Nogueira Leite disse

 

Sobre projeções da Economia

 

Ainda hoje vi um cartoon que dizia “estou bastante confuso porque tenho muita informação”. Os primeiros a avançarem com projeções foram os grandes bancos de investimentos europeus e americanos. Todos eles falavam numa quebra nos primeiros trimestres deste ano e depois a partir de setembro um crescimento muito significativo da Economia. Depois quando o Fundo Monetário, a OCDE e a Comissão Europeia apareceram com as suas projeções, assumiam já algo diferente, pois já iam tendo mais conhecimento sobre como a pandemia se estava a propagar pela generalidade das economias, incluindo já as economias mais desenvolvidas, e assumiram um cenário (que não pode ser já considerado como certo) em que este ano seria um ano de impacto muito significativo, mas que todo o ano de 2021 seria um ano de retomar o crescimento.

 

Enfim, a existência da Covid-19 teve logo consequências importantes, nos mercados financeiros houve uma queda acentuada nos finais de fevereiro, ou seja, quando se gerou o consenso de que realmente tínhamos um problema houve um ajustamento nos mercados. Houve infusão imediata de liquidez, os Bancos Centrais das principais economias que estavam já com políticas muitíssimo expansionistas. Para além disso os próprios supervisores encorajaram os bancos a renegociar os empréstimos com as famílias e com as empresas (houve legislação que o facilitou).

Portanto há esta ideia que, no caso europeu, quer este mecanismo único de supervisão, quer a própria Autoridade Bancaria Europeia, irão ter alguma flexibilidade na avaliação dos rácios dos bancos, no final deste ano e sucessivamente, mas neste momento tudo isto não é ainda muito claro.

 

Sobre o comportamento dos países

Os países atacaram de acordo com as suas capacidades, e é aqui que temos grandes diferenças na Europa. Os países com menor capacidade tiveram problemas muito grandes de ajudas diretas a empresas, às famílias, ou de apoio para que as ajudas do sistema financeiro pudessem ser imediatas. Todos reagiram, mas países como a Alemanha ou a Dinamarca ou a Holanda conseguiram avançar com apoios muito mais rapidamente do que os países que têm situações económicas e, sobretudo, situações de finanças publicas menos fáceis.

A questão aqui é que as projeções económicas e de saúde pública não colam muito bem, tendo em conta que a comunidade médica diz que não é provável que a economia possa retomar um padrão normal de desenvolvimento logo no início do próximo ano. Portanto, tendo esta comunidade razão, nós estaremos a falar de impactos económicos mais negativos do que aqueles que as instituições internacionais admitem.

Neste momento estamos num “novo normal” e, mesmo nos países que têm tido sucesso nesta fase, implicam ainda muitas restrições. Portanto as economias não voltam à sua capacidade inicial, por exemplo, a China está em 80% da sua capacidade, o que significa uma perda brutal de produto, de valor, de riqueza, de rendimento.

Portanto temos de ir gerindo esta situação, por forma a prejudicar o mínimo a economia a par de manter o objetivo de manter uma capacidade de resposta razoável do Sistema de Saúde. Os Bancos Centrais e o Estado numa situação destas, obviamente e todos defendemos, têm de ser chamados a atuar.

 

Sobre o impacto na economia

A situação que vivemos atualmente é um choque que afeta a procura e a oferta. A procura porque estando as pessoas em casa há uma série de consumos que não fazem e a oferta porque a procura diminuiu. Mas gerou muita produção científica na área da medicina, epidemiologia, virologia, entre outras áreas, e os economistas têm estado a olhar para isto.

 

O economista português Sérgio Rebelo, publicou um paper em conjunto com outros especialistas, em que o que eles conseguem é simular, com o modelo epidemiológico e com o modelo económico, diferentes estratégias. Eles verificam, tal como todos os outros modelos o têm feito, é que este período de volta à normalidade possível é muito importante porque, se nós o deixarmos resvalar vamos ter uma sucessão de quebras económicas de muito maior dimensão do que se autorrestringirmos a evolução da economia, mantendo um relativo continuo de produção, de consumo e de funcionamento.

Isto parece relativamente intuitivo, mas quando o conseguimos demonstrar algebricamente e depois corroborar empiricamente com dados de situações conhecidas, de facto dá outro conforto.

Mas há uma pergunta que se impõe, não estaremos a sacrificar demais a economia por causa da vida humana? Há alguns mais conservadores que dizem que entramos aqui em escolhas muito complicadas, mas para além dessa discussão que muitos especialistas de diversas áreas estão a ter, mas há um aspeto muito importante aqui, quer os economistas quer os virologistas estão de acordo que provavelmente é pior esquecermos esta questão ética da vida do que escolhermos a economia, porque o vírus é de tal forma contagioso que os efeitos na população (mesmo que seja numa pequena percentagem) são tão graves e tão longos que provavelmente o que iremos ter era a economia a ter necessariamente de parar.

 

 

Os estímulos são muito diferentes de país para país. Os pacotes de estímulo do Governo português são muito inferiores à generalidade dos outros países.

No caso da divida pública esta irá aumentar em todos os países. Em Portugal estima-se, pelo efeito de mais gastos nos impostos e por outro lado os ajustamentos automáticos com menos contribuições, que essa dívida aumente cerca de 130%.

A OCDE prevê uma quebra de 8% para Portugal, com uma subida de 5% já no próximo ano. Pensam que a Europa caia 6,6 % ao ano, o que é uma quebra de riqueza ao ano relativamente inédita e depois crescimentos importantes já no próximo ano.

 

Sobre os setores mais e menos afetados

Tudo isto assenta num cenário subjacente da evolução da doença melhor do que aquela que a comunidade das ciências médicas antecipa. Os setores não são todos afetados da mesma maneira, há uma grande assimetria. Os setores da aeronáutica, transportes, turismo, restauração, por exemplo, são muito mais afetados do que outros setores como o financeiro, que apesar de também ter quebras estas não são tão acentuadas.

 

 

A probabilidade de empresas ainda estarem abertas se houver um fecho de um mês, é bastante grande para o setor da banca, no setor dos serviços profissionais, entre outros. Mas se esse período for de 6 meses, ainda que intermitentes, cerca de 85% de serviços como restaurantes, bares, e outros simulares irão desaparecer.

Para o caso português o que é particularmente importante, sabendo que o Banco Central Europeu, com todas as resistências que conhecemos, continua a inundar as economias, que vai provavelmente haver um apoio importante do agrado das economias mais endividadas, porque serão endividamentos da União Europeia que através de instrumentos financeiros de muito largo prazo e que são aplicados sobre forma de subvenções na economia. Portanto não é endividamento adicional da economia portuguesa, é endividamento da própria Europa.

No entanto todas estas projeções dependem muito do que realmente irá acontecer daqui para a frente e de como será evolução da pandemia.

 

Sobre a retoma económica em Portugal

Eu acho que há setores que vão ter uma grande dificuldade em retomar cedo, apesar de se estar a pôr grande esforço nesses setores. O setor do turismo vai ser um setor que vai ter, claramente, muitas dificuldades nas suas várias vertentes. Já os setores industriais, vão depender, muito, nomeadamente os que vivem da exportação, de como é que os outros países reagem. Se os outros países tiverem sucesso a sair e a mantiverem as suas economias a funcionar, não vão voltar aos níveis anteriores. É impossível, enquanto durar a pandemia, que a economia volte para os níveis anteriores, mas podem-se aproximar significativamente. Portanto, quem exporte para sítios onde a pandemia vai estando controlada e onde se vai voltando a este novo normal, são os primeiros a retomar. Setores onde seja muito importante o contacto entre as pessoas e o transporte, esses setores vão ter, de facto, grandes dificuldades e vão ser os últimos a retomar.

 

Sobre o impacto da TAP

Em relação à TAP, eu acho que depende muito daquilo que o Governo quiser fazer. Eu acho que há aqui uma restrição financeira importante. Eu acho que, provavelmente, a TAP como está, precisa de ajuda do seu acionista público. Acho que isso deve levar a duas coisas, na minha opinião: por um lado, a que se altere o parassocial com o estado, entre o estado e os privados, portanto se houver apoio do Estado, isso deve significar regras diferentes porque neste momento temos esta situação anacrónica em que a exposição dos contribuintes é tão grave quanto a exposição dos privados, mas os privados é que fazem a gestão privada da companhia. Portanto há que alterar um pouco, na minha opinião, isso. E por outro lado, temos que ver, que a TAP é uma empresa que para continuar a funcionar com a configuração que tem hoje, vai custar milhares de milhões de euros aos contribuintes nos próximos dois anos.

 

 

Portanto, eu penso que temos que definir muito bem o que é que é serviço público da TAP, o que é que faz sentido que continue na TAP e o que não for, temos que ter uma TAP diferente, provavelmente muito menor, porque se não vai ser muito complicado, na minha opinião, ter os contribuintes já tão castigados por tantos anos de crise e pela dimensão da atual crise, estar a gastar mais um ou dois mil milhões de euros, numa empresa para ter um serviço que enfim, vai muito para além do serviço público.

 

Sobre o Futuro da Engenharia e da construção

É um bocadinho difícil de prever. Já percebemos que o Governo vai lançar obra pública. Eu acho que tem de haver muito juízo aqui, porque no curto prazo pode ser bastante bom para as empresas de construção.

No longo prazo, temos de ver se as obras são úteis ou não. Porque nós temos em Portugal, uma sucessão de um acumular enorme de custos de oportunidade de coisas que não são muito relevantes e que fazemos porque havia dinheiro, porque era importante. Eu acho que é importante ter aqui algumas obras que poderão ter que se fazer, mas gastar dinheiro por gastar dinheiro, gera rendimentos para alguns, mas não faz retomar a economia.

Havendo uma procura deprimida, e havendo, também, uma oferta deprimida o multiplicador dos modelos de despesa agregada, é necessariamente muito mais pequeno do que numa situação como por exemplo a da crise anterior. Portanto, numa situação como a crise atual, em que as pessoas não têm oportunidade para gastar, aquela ideia de que eu invisto 1.000 e depois, ao fim de x período, tenho 1.500, aqui não funciona assim porque a economia está toda ela deprimida e, portanto, não tenho este efeito de multiplicação de efeitos.

 

Eu acho que a construção sim, é um setor importante, mas temos que ter cuidado com isto porque vai ser preciso gastar dinheiro em muita coisa e vai ser preciso acudir às famílias, que é também um aspeto que não nos podemos esquecer que é muito importante. Há muita gente que vai passar muito mal durante este período. Portanto, temos que ter cuidado, que obras fazemos, para que é que elas servirão no futuro, porque obra por obra eu acho que não é solução para o país.

 

 

 

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Edição e texto: Catarina Soutinho | Transcrição: Sofia Vieira e Inês Miranda | Design Gráfico: Melissa Costa