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Os engenheiros podem ajudar na adaptação dos hospitais à Covid-19?

Especial Covid-19 25 Março, 2020

Manuel Luz Carvalho é médico e engenheiro Civil. Parece impossível, mas é verdade. A “pele” de médico não o fez perder a sensibilidade para a Engenharia, e foi assim que decidiu contactar a OERN para fazer um apelo a todos os engenheiros para que se organizem e de forma proativa procurem ajudar na luta contra a pandemia.

 

“Sou médico no hospital Egas Moniz, em Lisboa e estou a acompanhar de perto o processo de adaptação do meu hospital e de outros à luta contra a pandemia Covid-19. Sou também Engenheiro Civil e membro da Ordem dos Engenheiros.” Começa por nos dizer, lembrando que o seu percurso improvável não é o mais importante aqui, mas sim o facto de “a adaptação dos hospitais portugueses à luta contra a pandemia Covid-19 e enfrentar muitos problemas técnicos com os edifícios dos hospitais e centros de saúde.” E por isso decidiu fazer este apelo.

“Apelo aos engenheiros, profissionais de Engenharia e empresas em que estão inseridos para que, proativamente, criem uma rede de profissionais nas regiões que rápida e facilmente consigam dar resposta aos problemas técnicos que irão surgir nos hospitais, nos centros de saúde e nos lares de idosos. “

 

“Acredito que Portugal corre um risco muito sério de ter a totalidade das vagas de cuidados intensivos esgotadas dentro de alguns dias ou semanas.”  E explica-nos porquê: “esta realidade da inexistência de vagas adicionais de cuidados intensivos, que já está a acontecer noutros países do Sul da Europa como a Itália e a Espanha, obriga à criação de critérios de restrição para permitir que os doentes mais jovens e com menos fatores de mau prognóstico, ou seja com maior probabilidade de recuperar, não tenham as vagas totalmente ocupadas por outros doentes mais velhos e com menor possibilidade de recuperação da doença.”

Obviamente as restrições no acesso aos cuidados intensivos durante a pandemia Covid-19 irão conduzir “a um grande número de mortes evitáveis caso existisse uma maior capacidade de resposta. Na minha opinião, tendo em conta que Portugal tem ainda menos equipamento e vagas do que Itália ou Espanha, a situação poderá tornar-se ainda mais séria num curto espaço de tempo.” explica-nos o médico.

“Atualmente, em Portugal ainda não se tomou nenhuma medida que não tenha sido já tomada noutros países, pelo que não fará muito sentido estar à espera de resultados diferentes.”

 

Aponta Manuel Luz Carvalho, por isso, “são urgentes ideias, inovação e cooperação no sentido de aumentar significativamente o número de vagas de cuidados intensivos em Portugal num período de tempo muito curto. Só a tomada de medidas adicionais e inovadoras em relação ao que fizeram os outros países poderá conduzir a melhores resultados em Portugal do que os de Espanha e de Itália.”

O facto de ser médico permite-lhe acompanhar de perto a adaptação do SNS à luta contra a pandemia Covid-19. Por outro lado, a sua formação e experiência profissional, na área da Engenharia e da inovação permite-lhe constatar que:

 

“Existe atualmente uma necessidade brutal de proatividade por parte dos engenheiros e das empresas no sentido de procurarem desafios e necessidades que possam solucionar no mais curto espaço de tempo possível contribuindo assim para salvar vidas dos portugueses.”

 

“Infelizmente não há tempo para se estar à espera que que todas as necessidades e problemas técnicos sejam identificadas a nível central pelo governo e pelas administrações de saúde.” Estas instituições já estão sobrecarregadas pela necessidade de reorganizarem todo o SNS para responder à pandemia de forma convencional pelo que, “dificilmente, terão capacidade de organizar e implementar medidas adicionais baseadas na inovação e numa vontade acrescida de cooperar e de ajudar da sociedade civil.”

“É necessário e urgente que os engenheiros, as empresas e os organismos em que estão inseridos se apercebam que esta é a altura para se estar a aprender tudo o que é possível sobre o Covid-19, conhecer soluções técnicas que já foram implementadas na China e noutros países em fases mais avançadas da epidemia, e perceber o que resulta e o que não resulta, e a criar soluções e produtos que se adaptem à realidade nacional.” diz-nos o médico em sentido de apelo.

 

Manuel Luz Carvalho partilha uma lista de desafios nos quais o engenheiros podem colaborar:

aumento do número de ventiladores ou criação de soluções que permitam utilizar o mesmo ventilador para mais do que um doente simultaneamente;

criação de vastas áreas com pressão negativa que permitam alojar doentes infetados (seja através de estruturas provisórias ou da reconversão de áreas existentes);

alteração dos circuitos elétricos (criação de sistemas de redundância, criar pontos de eletricidade onde eles não existem atualmente);

alterações aos circuitos de esgotos e de águas relacionadas com a deslocação de equipamentos de diálise para assistência aos doentes infetados;

criação de adufas (zonas segregadas de pressão negativa intermédia) para que os profissionais de saúde se possam equipar ou desequipar em segurança;

avaliar a possibilidade de aumentar a produção nacional de álcool, desinfetante, máscaras e restante equipamento de proteção;

desenvolvimento de equipamento de proteção para os profissionais de saúde adaptado ao Covid-19 que possa ser utilizado confortavelmente por períodos prolongados;

adaptação de estruturas vazias como hospitais que tiveram a sua atividade suspensa, hotéis, escolas ao tratamento de doentes Covid-19;

modelação da dispersão de aerossóis e de gotículas contaminadas com o vírus que permita estabelecer quais as distâncias a manter;

criação de enfermarias em estruturas provisórias ou modulares;

dispositivos para facilitar a pronação de doentes;

desenvolvimento de técnicas para desinfeção massiva.

 

Manuel Luz Carvalho partilha já no final da entrevista uma momento da sua vida que por estes dias têm feito aindas mais sentido: “Lembro-me de uma aula de Saúde Pública em que o professor dizia que o aumento da esperança média de vida das populações assentava 70% no acesso a água potável e saneamento.”

“Pensei logo que era curioso que o aumento da esperança média de vida se dever principalmente a infraestruturas de Engenharia, mas ser comum ouvir-se que são os médicos que salvam vidas!”.

 

E por isso reitera que “não podemos cair no erro de pensar que a tarefa de salvar vidas nesta epidemia cabe apenas aos profissionais de saúde, mas que seria muito importante aumentar os meios e as infraestruturas para que esses profissionais possam prestar os melhores cuidados possíveis.”

E por tudo isso Manuel Luz Carvalho acredita que “Engenharia portuguesa pode ter um papel crucial no aumento da disponibilidade de infraestruturas e de equipamento que permita combater eficazmente esta epidemia caso lhes seja dado o conhecimento de que existe imensas oportunidades para ajudar para fazer.”

 

Termina relembrando o apelo:
“Todos os dias estão a surgir novos desafios de Engenharia e de construção e com este apelo pretendo alertar para a possibilidade que os engenheiros têm de ajudar o país a lutar contra esta pandemia e a salvar vidas. Sugiro que proativamente sejam efetuados contactos não só Administrações dos hospitais, os serviços hospitalares e os centros de saúde, os lares mas também os profissionais que trabalham na linha da frente para averiguar quais os problemas técnicos com que se deparam e para manifestar disponibilidade de ajudar na sua resolução. Acredito que a criação de linhas de comunicação com o SNS a vários níveis ajude a solucionar estes problemas muito mais rapidamente. Seria também importante a criação de estruturas que permitam coordenar esta resposta adicional da sociedade à luta contra a pandemia e acredito que a Ordem dos Engenheiros poderia ter um papel importante e de liderança na coordenação da resposta”.

Assim, a resposta ao título desta notícia é: Sim.