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“Os engenheiros terão de estar na linha da frente”

Entrevista 30 Março, 2020
Fernando Ferreira, diretor de Águas Pluviais e Ambiente, na Empresa Águas de Gaia, EMSA

 

“Todos concordamos que a água é um bem indispensável, sem o qual não poderíamos sobreviver. E só faz sentido o fornecimento de água às populações se for assegurada a sua qualidade, quer seja numa situação de normalidade quer nesta situação de pandemia em que vivemos.” As palavras são de Fernando Ferreira, engenheiro e diretor de Águas Pluviais e Ambiente, na Empresa Águas de Gaia, EMSA.

 

O município de Vila Nova de Gaia é o terceiro município do país com maior número de habitantes, cerca de 300.000, apenas superado por Lisboa e Sintra. Acresce ainda uma afluência significativa de pessoas que procuram o concelho para trabalhar e visitar. Por isso mesmo Fernando Ferreira começa esta entrevista por nos lembrar que “a atividade da Empresa Águas de Gaia só pode ser bem compreendida no contexto da dimensão do concelho em que se insere e na riqueza da diversidade, onde uma área com características fortemente urbanas se cruza com outra onde predominam alguns traços de uma ruralidade interessante.

Neste pressuposto procuramos conhecer o trabalho desenvolvido por engenheiros e outros profissionais que nos confirmam que a água que consumimos é segura.

 

Sendo Vila Nova de Gaia o terceiro maior município do país em número de habitantes, como a vossa atividade se modificou com a presença do vírus?

Cumprir a missão da Empresa Águas de Gaia, de garantir continuamente a distribuição de água de máxima qualidade aos Gaienses e a todos quantos nos visitam, de proceder à drenagem das correspondentes águas residuais e o seu encaminhamento para tratamento e a gestão do sistema municipal de resíduos urbanos, bem como garantir a gestão da rede de águas residuais pluviais e a limpeza e requalificação das ribeiras do concelho e participar ativamente na gestão e manutenção das zonas balneares da Orla Marítima, com 15 km de praias com Bandeira Azul, e das áreas de lazer da frente fluvial do Rio Douro com uma extensão superior a 20 km é, num contexto de normalidade, um desafio permanente que assumimos com grande determinação e rigor, apoiados por um quadro de pessoal onde técnicos, operários e pessoal administrativo constituem uma verdadeira equipa ao serviço da nossa população. A nossa forma de estar e de ser foram determinantes na abordagem realizada perante a gigantesca adversidade da Pandemia COVID-19, que afeta o país e o nosso concelho, em particular. Cedo concentramos todos os nossos esforços na elaboração de um Plano de Contingência que garantisse o cumprimento integral da nossa responsabilidade como Empresa, de forma a garantir a normalidade na distribuição de água de qualidade, a drenagem de águas residuais, o funcionamento regular do sistema de drenagem de águas pluviais e do sistema de gestão de resíduos urbanos e de limpeza e higienização dos espaços públicos, Sob o lema “Juntos Vamos Vencer” , definimos equipas para manter a operacionalidade nos vários setores, criámos condições para garantir o recurso a teletrabalho, reforçámos a nossa capacidade no atendimento dos nossos clientes com recurso a ferramentas digitais, garantimos equipas de recurso em isolamento social para fazer face a eventual contaminação de alguns colaboradores, etc. O desafio é enorme, mas a determinação também e, por isso, uma mensagem de esperança “Juntos Vamos Vencer”, pelos Gaienses, por Portugal!

 

Podemos estar seguros de que a água que bebemos da torneira e é segura para consumo?

Sim. Águas de Gaia é uma empresa certificada, desde 2001 em Qualidade e Ambiente e desde 2003 em Segurança, que garante a disponibilidade e a qualidade da água segura em todo o concelho e o cumprimento das obrigações de conformidade decorrentes da legislação aplicável, regulamentação e normalização (NP EN ISO 9001, NP EN ISO 14001 e OHSAS), consciente das suas responsabilidades na gestão de recursos, melhoria contínua, diminuição dos impactos das suas atividades sobre o meio ambiente e no controlo dos riscos e perigos que podem afetar as pessoas envolvidas nos processos, Águas de Gaia adquire a água com a qualidade para consumo humano a AdDP- Águas do Douro e Paiva, SA, entidade gestora do sistema multimunicipal de abastecimento de água em alta ao Grande Porto, e distribui água para consumo humano à população de Vila Nova de Gaia, mantendo:

– um Programa de Controlo de Qualidade da Água (PCQA) para consumo humano com recolhas de amostras de água para análises a diferentes parâmetros microbiológicos, físico-químicos e radiológicos nas redes prediais, correspondentes às torneiras dos consumidores, aprovado pela Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), e

– um Plano de Controlo Operacional da Água (PCOA) de avaliação da água na rede pública, com a realização de recolhas de amostras de água, em caixas de controlo de qualidade da água na rede pública, distribuídas pelas diferentes freguesias do concelho, representativas da água armazenada nos reservatórios constituintes do sistema de água em baixa de Vila Nova de Gaia, sendo analisados os parâmetros constantes do PCQA.

Na fase de contenção alargada de epidemia do COVID-19 definida pela DGS, Águas de Gaia cumpre o Plano de Contingência da Empresa, segue as recomendações emitidas pela Autoridade Nacional de Saúde e pelas autoridades de saúde regionais ou locais, gerindo caso a caso os planos de amostragem previstos no PCQA aprovado.

O controlo de qualidade da água é efetuado com maior periocidade do que habitualmente?

No âmbito do PCQA, o controlo de qualidade da água tem sofrido alterações no que concerne à calendarização e à seleção dos pontos de amostragem, considerando que, nesta data, encontram-se:

1. encerrados os correspondentes a estabelecimentos de ensino;

2. com acessibilidade condicionada, os estabelecimentos HORECA, indústrias e cantinas;

3. assinalados pela AS como críticos e a evitar, os centros de idosos, hospitais e unidades de saúde,

 

sendo controlados os pontos de amostragem correspondentes a estabelecimentos e instalações que se encontram abertos e cujos proprietários permitem as colheitas de amostras de água. Relativamente ao controlo operacional, tendo sido aumentado o número de análises.

 

No atual cenário de emergência (fase de mitigação), quando estão identificadas situações de transmissão comunitária que colocam em risco a saúde dos técnicos de colheita de amostras, as entidades gestoras, sob orientação da ERSAR e conhecimento da AS, e em articulação com o laboratório, podem adiar controlos de rotina, comprometendo a distribuição equitativa no tempo, mas reforçando a monitorização operacional em pontos de controlo na rede de distribuição.

 

Quais os cuidados que os técnicos estão a ter na recolha? E os equipamentos, existe alguma alteração na sua manutenção?

A realização das recolhas de água é efetuada por Técnicos de Recolha da empresa, certificados para a colheita de amostras de água, avaliados pela RELACRE – Associação de Laboratórios Acreditados de Portugal. O procedimento de recolha é realizado em conformidade com as Instruções de Trabalho e Procedimentos Operacionais de Controlo da Qualidade da Água, que transcrevem o estipulado na legislação aplicável, nas orientações da ERSAR e nas Normas de Qualidade, Ambiente e Segurança. As recolhas são enviadas para controlo analítico a Laboratórios externos, acreditados.

Os técnicos utilizam equipamentos de proteção individual, luvas descartáveis e bata/fato, tendo sido introduzidas novas regras, após implementação do Plano de Contingência COVID-19:

– A entrada dos Técnicos no interior de uma instalação ou estabelecimento respeita a limitação de pessoas no interior do espaço e a distância social em torno de si com material afeto;

– Higienização das malas dos equipamentos de medição in loco antes e depois da entrada nas instalações e das locais onde tocam no interior e exterior da viatura de apoio ao CQA, sempre que iniciam e que terminam o dia de trabalho;

– Utilização de máscara de proteção individual, sempre que aplicável;

Em termos de recursos humanos afetos, o trabalho de recolha é efetuado por 1 Técnico com 1 viatura, durante um período de 15 dias, sendo posteriormente substituído durante 15 dias, em que ficará em teletrabalho.

Existe algum plano de contingência caso a situação de COVID-19 dispare? Como continuará a ser assegurada a qualidade da água?

Todos concordamos que a água é um bem indispensável, sem o qual não poderíamos sobreviver. E só faz sentido o fornecimento de água às populações se for assegurada a sua qualidade, quer seja numa situação de normalidade quer nesta situação de pandemia em que vivemos. Um dos objetivos do Plano de Contingência COVID-19, de que falei anteriormente, e que já implementámos na Águas de Gaia, é precisamente o de garantir o abastecimento da população com água de qualidade, mesmo na fase mais aguda desta crise. Esse plano é objeto de revisão constante, por forma a adaptar-se às exigências que cada momento impõe.

A nossa Empresa integra uma organização internacional, a “Aqua Publica Europea”, e temos mantido um contacto muito próximo com outras entidades gestoras ao nível europeu, nomeadamente gregas, italianas, francesas, espanholas, etc.  Ainda muito recentemente estivemos numa reunião por videoconferência para partilhar experiências e, dessa forma, estarmos melhor preparados para enfrentar esta pandemia e assegurar o cumprimento da nossa missão, contribuindo desta forma para que todos juntos possamos ultrapassar este período tão difícil.

Em que medida os engenheiros continuam a ter nesta fase um papel importante?

Os engenheiros das várias especialidades ocupam um lugar de grande importância no contexto das entidades gestoras em todo os momentos da vida da nossa sociedade. O trabalho de equipa é sempre fundamental e, num momento crítico, como é este em que vivemos, todos somos chamados a desempenhar com grande responsabilidade e espírito de sacrifício a nossa função. Neste aspeto,

 

a Engenharia portuguesa já tem dado provas de estar à altura de grandes desafios. E este tem sido reconhecido como um dos maiores desafios da era moderna, em que os engenheiros das várias especialidades terão de estar na linha da frente. E o nosso contributo é indispensável para ultrapassar as dificuldades garantindo o fornecimento de água de qualidade, condições de salubridade, fiabilidade dos sistemas de informação, etc. e, para isso, precisamos dos Engenheiros Civis, do Ambiente, Informáticos, Eletrotécnicos e de outras especialidades do domínio da Engenharia e também de outras áreas da Ciência.

 

 

Há engenheiros no ativo neste momento no controlo da água? De que especialidades?

Sim, temos vários engenheiros em exercício de funções no terreno e outros que se encontram em teletrabalho, tanto na área de gestão operacional das várias áreas de atividade da Empresa como no controlo de qualidade da água de abastecimento. Na globalidade, contamos com engenheiros civis, de ambiente, informáticos, eletrotécnicos e mecânicos. Cada um dedicado à sua área mais específica, mas constituindo um todo em que a responsabilidade pelo produto que chega a nossas casas depende de todos.

 

São também heróis, porque asseguram que a nossa água continua segura, certo?

Sim, são verdadeiros heróis porque garantem a fiabilidade de um produto precioso e dão segurança a toda a população no seu consumo. Mas, neste momento, todos podemos ser heróis cumprindo com o nosso dever, uns ficando em casa em teletrabalho, outros cumprindo a sua missão de garantir a reparação de avarias em condutas de abastecimento de água, saneamento ou de águas pluviais, outros ainda assegurando o normal funcionamento dos serviços de recolha de resíduos urbanos e de limpeza urbana e, ainda, todos aqueles que garantem a monitorização do funcionamento dos sistemas por forma a que nunca falte água nas nossas casas, que as águas residuais não corram na via pública ou que os resíduos não se acumulem fora dos contentores e tenham um destino adequado.

Que conselho dá a todas as pessoas/engenheiros que vão ler esta entrevista? Que comportamento adotar?

A engenharia vive para servir as pessoas, por isso, todos nós engenheiros devemos enfrentar a presente situação com o espírito de servir os outros. E para isso temos de cumprir com todas as recomendações das autoridades de saúde, respeitar os procedimentos estabelecidos nos Planos de Contingência COVID-19 e na legislação de SHST. Mas gostaria de deixar também uma mensagem de esperança, de que vamos vencer esta pandemia, juntos, para que possamos depois recuperar deste inimigo invisível como uma sociedade mais forte e mais solidária.

Outras informações relevantes que sejam importantes para a população?

Nesta fase em que o aconselhamento de isolamento social tem sido amplamente difundido, importa salientar que as pessoas devem usar as ferramentas digitais disponíveis no contacto com as entidades gestoras e, dessa forma, poderão resolver praticamente todos os seus problemas sem ter necessidade de sair de casa. No caso da Empresa Águas de Gaia essas ferramentas já existiam pelo que apenas foram realizados pequenos ajustamentos que permitem realizar todas as tarefas digitalmente, desde contratos de fornecimento de água, pedidos de execução de ramais, responsabilidades comerciais, pagamentos de faturas, etc. Também reforçamos os nossos canais de atendimento telefónico, por forma a tramitarmos todos os processos sem qualquer necessidade de deslocação às nossas instalações. Passada esta crise, esta nova forma de relacionamento com os nossos clientes vai seguramente sair beneficiada com a facilidade que a digitalização pode trazer para as populações. E, nesta matéria, os engenheiros pela forma pragmática com que encaram os desafios terão um papel fundamental.