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Rui Moreira: “Serão precisos muitos engenheiros para nos ajudar a retomar o trilho”

CDRN 6 Maio, 2020

Rui Moreira foi o primeiro convidado do Ciclo de Conferências online “Há Engenharia fora da caixa”, organizadas pela Ordem dos Engenheiros – Região Norte (OERN). Durante uma hora de conversa com engenheiros, o presidente da Câmara do Porto partilhou a sua visão sobre o futuro da cultura da cidade, sobre turismo, transportes, energia, entre outros temas. Rui Moreira respondeu às perguntas dos engenheiros e deixou algumas mensagens para o futuro. 

 

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Joaquim Poças Martins, presidente da OERN e moderador desta primeira conferência começou por lembrar que “os Engenheiros são vistos pela sociedade como concretizadores, como pessoas que fazem, que estudam, que resolvem problemas. Mas o que é isso de ser Engenheiro? O que é isso de fazer?” questionou, para de seguida deixar um alerta: “Há momentos para refletir, há momentos para agir e este momento é momento um de reflexão. E para isso os engenheiros não chegam, precisamos de outras pessoas, de outros saberes, de outras experiências. O Rui Moreira, não está aqui como Presidente da Câmara do Porto, não está aqui como político, mas sim como um empreendedor, como um homem de cultura, do associativismo, e por ser uma voz forte do Norte

Entre muitos outros temas que foram abordados, Rui Moreira responde à pergunta sobre o que se espera dos engenheiros no futuro próximo: Aquilo que espero é que olhem para os riscos como uma oportunidade, e que não se esqueçam em qualquer das circunstâncias de serem empreendedores. Serão precisos muitos engenheiros para nos ajudar a retomar o trilho”

 

O que Rui Moreira disse… 

Cultura

“Isto é como uma apneia, precisamos desesperadamente de viver”

Precisamos de voltar aos espaços públicos, precisamos de voltar a poder visitar um museu, já não vamos querer, seguramente, ouvir música, apenas nas nossas casas, vamos querer frequentar restaurantes e vamos perceber a gastronomia, que não se limita ao take-away, vamos querer, seguramente, assistir a peças de teatro e vamos assistir a menos coisas na Netflix e tudo isto vai-nos obrigar a fazer escolhas e a fazer opções. Nestas crises, o principal problema com que nós nos vemos confrontados é, seguramente, o medo.

Na medida em que nós temos que fazer essa opção de sair, é fundamental que olhemos para a cultura, não como uma coisa que supletiva a todas as outras necessidades, mas que olhemos para ela como uma necessidade imperiosa de criar e de voltar a criar os laços pessoais que nós temos.”

“Nós vamos precisar de poder voltar a ir a bibliotecas para consultar livros, precisamos de poder ir a livrarias para comprar livros, precisamos de retomar esses hábitos. Se nós não formos capazes de fazer isto, de fazer algum esforço neste sentido, naturalmente com todas as salvaguardas de segurança que podermos ter, o que vai acontecer é que nós vamos deixar de viver na cidade. Nos últimos anos aquilo que aconteceu, foi em todo o mundo, as pessoas procuraram a cidade como um sítio muito mais aprazível para viver do que antes e isso resultava destes hábitos.

A vida da cidade tem a ver com isto, tem a ver com o aglomerado de pessoas, mas tem a ver com a interação das pessoas e essa interação resulta, exatamente, dos laços culturais entre si.

O xenofobismo e o populismo só se combate se nós conseguirmos, apesar de tudo, continuar a conviver como antes convivíamos e isso não é substituível pelo aparelho que nós estamos a usar para hoje comunicar.

 

 

 

 

Turismo

“A ideia de que Portugal é um país onde se pode ficar doente  vai ter um papel muito importante na retoma do Turismo “

Relativamente ao turismo, nós sempre percebemos que era um produto frágil porque o turismo reage muito ao medo. Por que é que o Porto, nos últimos anos, cresceu em turismo?

 

 

Três fatores. O primeiro fator que nós não nos podemos esquecer, foi a construção de um aeroporto. Passamos a ter um aeroporto com all modern conviniences, mas lembro que isso não foi consensual. Quando o Jorge Coelho decidiu construir o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, o novo aeroporto, foi criticado por muita gente até da nossa cidade que achava que o aeroporto era megalómano. Eu nunca achei que fosse megalómano, achei sempre que o aeroporto era um investimento bem feito e julgo que isso foi um fator fundamental, foi a pedra angular de uma estratégia que permitiu que o Porto crescesse.

 

 

Depois, é verdade, houve um outro fator, que foi a reabilitação urbana, a regeneração urbana do Porto e a oportunidade de mostrar uma coisa desconhecida, porque no turismo procuramos o desconhecido e o Porto, era, alguém o dizia, o segredo mais bem guardado da Europa. Hoje já não é porque as pessoas vieram.

Mas houve um terceiro fator que nós não nos podemos esquecer, que foi o medo, ou seja, muitas das pessoas que passaram a visitar o Porto, eram pessoas que anteriormente iam para o Egipto, Tunísia, Marrocos, Líbano, Turquia e que deixaram de ir porquê? Exatamente por causa do fator medo.

As pessoas vão fazer escolhas relativamente ao turismo, certamente em termos daquilo que é a procura de uma solução onde, apesar de tudo, sintam que correm menos risco.

Acredito que aqui nós teremos um papel a desempenhar. Acho que o que aconteceu com a resposta extraordinária que o Serviço Nacional de Saúde deu maioritariamente ou esmagadoramente aos portugueses, criou e criará também um fator de atração no futuro, ou seja, a ideia de que Portugal é um país onde se pode ficar doente  vai ter um papel muito importante na retoma do turismo e nós vamos vender esse produto.

Um segundo aspeto muito importante, é que numa cidade como o Porto o turismo vai ser muito afetado naquilo que são as grandes concentrações – As pessoas, pelo menos durante um tempo previsível, vão ter muita dificuldade em ir a Team Parks. Nós apesar de tudo, temos uma característica muito diferente como cidade, as pessoas aqui vêm à procura do small is beautiful, e eu acredito que o small is beautiful vai continuar a ser importante. É evidente que nós só podemos ter isto se, por um lado, as coisas correrem bem, do ponto de vista epidemiológico, porque se não as pessoas vão voltar todas para dentro de casa.

Depois, também, se tivermos aeroporto, ora nós não podemos ter um aeroporto sem voos, temos de ter ligações aéreas, para depois podermos vender um novo produto e fazer um restart e acredito que isto levará algum tempo para crescer.

O turismo não diminuiu, desapareceu. Vai haver um processo de maior seleção entre aquilo que é bom e aquilo que é mau, porque vindo menos, o produto mau vai mais rapidamente desaparecer e eu estou convencido de que alguns dos produtos de menos qualidade vão sofrer, até porque o turismo que virá primeiro será o turismo com poder de compra e porquê? Porque qualquer que seja o modelo de retoma da aviação, a aviação vai ser mais cara, nós vamos falar de preços como tínhamos no início do século. Viajar era muito mais caro do que é hoje e porquê? Porque havia menos passageiros, porque não havia low-cost. Nós vamos, como sempre, nesta questão do turismo, estar em concorrência com outras cidades, mas eu acredito que o turismo irá regressar.

 

Transportes e mobilidade

“A mobilidade é o grande conflito das cidades”

A estratégia smart cities está em continuidade e tem vindo a ser articulado com a EuroCities. E neste caso provavelmente terão de ser introduzidos aceleradores e apoiar sobretudo startups na cidade que estão a trabalhar nessa área. A inteligência artificial será o grande desafio, apesar de perigosa, mas ao mesmo tempo irá permitir transformar as cidades em organismos que funcionam muito melhor e isso provavelmente também irá ajudar a resolver o problema dos transportes. A ideia de que o problema do transporte pode ser resolvido só com hardware não é verdade, nós temos de utilizar também software. Até porque estamos muito atrasados em tudo o que é linha férrea. A última grande modificação que foi feita neste setor foi a eletrificação da linha férrea do Norte, desde daí nada de muito relevante foi feito e, não é provável que isto possa andar rapidamente neste setor.

Tudo aquilo que tem haver com o metro tem sido uma matéria que também tem andado lentamente. Portanto é necessário encontrar soluções para a mobilidade com recurso mais à nossa inteligência do que propriamente a grandes obras. Isso seria relativamente fácil de se fazer se nos fosse permitido compreender melhor os comportamentos, os ciclos, as marés.

Um dos grandes problemas na cidade do Porto e na cidade de Gaia, pois elas articulam-se entre si, é a ligação à VCI e se fossemos capazes de resolver alguns desses constrangimentos seguramente que poderíamos resolver um grande problema. O problema das obras públicas, tipo metro, é o durante, ou seja, as obras desta natureza causam um grande impacto nas cidades. As eleições são para o ano, e ninguém ganha eleições com a cidade com buracos por causa das obras do metro. 

Irá haver uma maior procura do transporte individual, ou seja, uma retoma mais lenta do transporte público. Mas durante algum tempo iremos conseguir viver bem com isso devido ao decréscimo do turismo. Mas no que diz respeito ao transporte público nós precisávamos da linha do Campo Alegre e que a ponte entre Porto-Gaia vá pelo menos até às Levezas. Ou seja, precisamos de aumentar e melhorar oferta de transportes públicos, para poder tomar medidas minimizadoras de utilização do transporte individual.

A mobilidade é o grande conflito das cidades. Fazemos imensos esforços no sentido de que a nossa frota seja elétrica, que a luz seja Led, que os edifícios sejam energeticamente eficientes, mas depois aquilo que é a produção de CO2 é feita através do transporte individual, através de recursos que nós não podemos controlar. De facto, temos de encontrar soluções, mas também sabemos que isso só é possível através do investimento nos transportes públicos de energia limpa.

 

Energia

“Iremos perseguir a ideia de produção de energia”

 Há várias questões que dependem ainda de legislação, mas iremos perseguir a ideia de produção de energia. Temos aliás um processo em estudo que é utilizar a empresa das Águas do Porto para esse fim, o que não é muito evidente, por causa da Entidade Reguladora que muitas vezes coloca várias limitações, mas gostávamos de começar a produzir energia, até porque temos as plataformas certas, temos a habitação municipal, escolas municipais, temos um conjunto de edifícios que permitiriam produzir energia e desde que seja permitido que os habitantes dessas habitações possam usufruir disso em condomínio, naturalmente que isso terá um grande impacto. Para além disso também toda a iluminação pública da cidade será substituída por leds num período de 2 a 3 anos. Toda a energia que estamos a comprar neste momento é energia renovável. Além disto também temos alguns projetos inovadores com a EDP que poderão ser anunciados dentro dos próximos dias.

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Edição e texto: Catarina Soutinho | Transcrição: Sofia Vieira e Inês Miranda | Design Gráfico: Melissa Costa